Por: Lívia Corbellari

Não é ficção científica:
é a nova previsão do tempo.

O céu não é mais o limite para poluição por plástico. Cientistas descobriram que microplásticos estão caindo junto com a chuva, transformando as nuvens em mais um jeito de espalhar esse problema. O pior? Esses pedacinhos invisíveis de plástico podem levar séculos pra desaparecer e já estão no ar, na água, na comida e dentro do nosso corpo.

Os microplásticos (MPs) são partículas com até cinco milímetros. A maioria vem de garrafas, embalagens descartáveis e tecidos sintéticos. Por serem pequenos e leves, são facilmente levados pelos ventos e espalhados por longas distâncias.

“Os MPs podem permanecer suspensos na atmosfera por até uma semana. Quando chove, descem junto com as gotas d’água”, explica o biólogo Daniel Gosser Mota. Já foram encontrados em alimentos como sal, mel, frutos do mar, e também no sangue, pulmões e até na placenta humana.

A poluição plástica é hoje o segundo maior problema ambiental global, atrás apenas das mudanças climáticas. E os centros urbanos concentram o maior volume de resíduos. “Os impactos são graves: morte da vida marinha, contaminação de animais, plantas e acúmulo no corpo humano. Ainda não sabemos os efeitos a longo prazo, mas é certo que estamos comendo e respirando plástico”, alerta o biólogo.

“Grande parte dos plásticos não é reciclável”, afirma Lucio Heleno Barbosa dos Santos, presidente da Reunes (Rede de Economia Solidária dos Catadores Unidos do Espírito Santo) e integrante do MNCR (Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis).

Atualmente, apenas os tipos PET, PEAD e PP têm valor de mercado e, mesmo assim, enfrentam barreiras. “Plásticos coloridos ou com formatos como bandejas e tampas são difíceis de vender. A região metropolitana do Espírito Santo é uma das poucas que tem tecnologia para reciclar e comercializar esse tipo de material, graças a uma parceria entre a Ufes e a Vale”, explica. 

Todos os meses, cerca de 500 toneladas de resíduos são recolhidas pelas associações da Reunes e o valor das vendas é dividido igualmente entre os catadores. Somente de plásticos coloridos e de formatos diversos, já foram recicladas 39 toneladas. 

A fotografia mostra um homem negro com cabelos crespos, sorrindo naturalmente para a câmera em um ambiente interno. Ele veste uma camisa polo azul e está posicionado em um espaço que parece ser uma área de trabalho.,
Lucio Heleno. Foto: Francisco Xavier e Andressa Freitas

Graças à rede, que reúne cerca de 12 associações distribuídas entre os municípios de Serra, Cariacica, Vitória, Viana, Vila Velha e Guarapari, é possível conseguir melhores preços de mercado. Além disso, a Reunes também atua na representação política dos catadores e na cobrança por políticas públicas.

Alvanete da Silva Eleotério dos Anjos é uma das catadoras que integram essa rede. Hoje, é diretora-presidente da Abrasol, na Serra, e lembra que a criação da associação foi uma luta coletiva de muitas mãos. A Abrasol surgiu em 2010, a partir de uma iniciativa de educação ambiental promovida pela Prefeitura da Serra. Inspirado no Banco Verde Vida, de Vila Velha, o grupo criou um sistema de troca de recicláveis por moeda social, que chegou a envolver 350 famílias. Com o tempo, o projeto se transformou em uma associação de catadores, que hoje atua profissionalmente na coleta e triagem de resíduos.

  1. O começo do problema: onde tudo vira resíduo: 
  • Embalagens descartadas
  • Roupas sintéticas na lavagem
  • Produtos de higiene com micropartículas
  1. Fragmentação
  • Sol, chuva e tempo quebram os plásticos em pedaços cada vez menores
  • Nasce o microplástico (MP): até 5mm de tamanho
  1. No ar, na água, na vida
  • Ventos espalham MPs pelo ambiente e vão para oceanos, rios e solos
  • Inalados com o ar, ingeridos com comida e água
  1. A chuva de plástico
  • MPs flutuam na atmosfera por até 7 dias
  • Quando chove, descem com as gotas: tá chovendo plástico!
  • Já foram detectados em teias de aranha, sal, mel, pulmões, plantações…
  1. E o que fazer com isso?
  • Consumir menos plástico
  • Design circular transforma lixo em novos produtos
  • Reciclagem é parte da solução, mas tem limites
  • Fazer coleta seletiva e se informar sobre os tipos de plásticos que são realmente recicláveis
  • Catadores fazem um trabalho essencial e precisam ser mais valorizados
  • Empresas e governos devem aplicar a Política Nacional de Resíduos Sólidos e investir via a Lei de Incentivo à Reciclagem

Alvanete participa da associação desde sua formação. Na época, sua filha ainda era pequena, e ela buscava uma forma de trabalhar sem precisar se ausentar de casa, para acompanhar de perto o crescimento e a educação da menina. 

“Graças à associação, pude estar presente na vida da minha filha. Fui eu, inclusive, quem a alfabetizou. Hoje, ela é formada em Fonoaudiologia. A Abrasol é o sustento da minha família, mas também representa meu desenvolvimento pessoal. Eu me sinto uma mulher mais consciente, mais forte e com maior responsabilidade ambiental. Além disso, sei que, por meio do meu trabalho, posso gerar renda e oportunidades para outras pessoas da minha comunidade”, conta.

Lucio reforça que a poluição plástica é um problema antigo, ainda que a chamada “chuva de plástico” seja uma novidade. O acúmulo desse material representa uma crise de saúde pública, já que doenças como dengue, chikungunya e zika vírus estão diretamente relacionadas à má gestão de resíduos sólidos. 

Outro ponto destacado por ele é a limitação da coleta seletiva: “Apesar de o Espírito Santo contar com coleta seletiva na maior parte dos municípios, a cobertura ainda é muito pequena”, afirma.

Diante disso, Lucio defende que a responsabilidade não pode recair apenas sobre os ombros dos catadores. “É preciso que todos mudem de comportamento: consumir menos produtos com embalagens plásticas, separar corretamente os resíduos, cobrar responsabilidade ambiental do poder público e das empresas e valorizar o serviço dos catadores”, conclui. 

Os catadores estão na base de todo o processo de reciclagem e são responsáveis por praticamente toda a coleta e triagem dos resíduos recicláveis e ainda são os que ficam com a menor parte dos lucros. “O poder público, por si só, não consegue dar conta do volume de plástico e de outros materiais descartados diariamente. É urgente que nosso trabalho seja valorizado e remunerado de forma justa”, afirma Alvanete.

Além da valorização profissional, ela destaca a importância de mudar o olhar da sociedade, que ainda enxerga os catadores com desdém ou piedade. “Existe um grande desprezo em relação à nossa atuação, que, muitas vezes, nem sequer é reconhecida como trabalho. No entanto, temos muito orgulho do que fazemos e sabemos da nossa importância”, completa.

“Se não fossem as catadoras, São Paulo estaria vivendo num mar de lixo.”

Shirley dá voz a uma história que há muito tempo precisa ser contada: a das mulheres, mães e catadoras.
Fotografia com fundo transparente mostrando Shirley Cruz, mulher adulta de camiseta branca, boné e tênis, caminhando enquanto carrega nas costas grande estrutura de grade metálica repleta de materiais recicláveis (garrafas, sacolas, objetos diversos). Na caçamba, duas crianças estão posicionadas junto: menino de camiseta listrada preta e amarela à esquerda, e menina de blusa azul com cabelos cacheados à direita, ambos com expressões contemplativas. A composição documental retrata realidade social de famílias que sobrevivem da coleta de recicláveis, com crianças acompanhando o trabalho.

Em Vitória, um laboratório criativo está mostrando outro caminho. No comando d’A Fantástica Carpintaria, a designer Juliana Lisboa transforma resíduos em móveis, utensílios e objetos com valor social e ambiental.

“Trabalhamos com reciclagem criativa e design circular”, explica Juliana. A equipe usa máquinas da rede global Precious Plastic para triturar, derreter e moldar tampinhas e embalagens plásticas, geralmente dos tipos PEAD (2) e PP (5). 

A coleta é feita por meio de oito pontos fixos em espaços culturais da cidade e também em ações pontuais. “É uma forma de aproximar as pessoas da responsabilidade sobre o lixo que produzem”, diz. 

Mas nem tudo é simples. “Falta padronização nas embalagens, identificação nos rótulos e muitos produtos são feitos para o descarte, com colas fortes e mistura de materiais que dificultam a reciclagem”, conta Juliana. Ela também destaca a limitação da coleta seletiva e os desafios com resíduos sujos ou contaminados.

Para quem ainda vê o plástico apenas como lixo, Juliana deixa um recado direto: “O plástico só é lixo quando a gente escolhe tratá-lo assim. Consumir com consciência, reaproveitar, consertar, separar corretamente e conhecer iniciativas locais, tudo isso faz diferença. Cada pequena ação conta”.

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Reciclar é importante, mas não resolve tudo e não pode ser uma missão solitária. Quem coloca plástico no mundo também precisa tirar. A Política Nacional de Resíduos Sólidos já diz isso desde 2010, empresas, governos e consumidores têm responsabilidade compartilhada.

A lei prevê a logística reversa, que obriga marcas a recolherem suas embalagens, mas essa prática ainda engatinha. E mesmo com a criação da Lei de Incentivo à Reciclagem, em 2021, ainda faltam investimentos em quem realmente faz a diferença: catadores, cooperativas e projetos criativos. Enquanto isso, o plástico vira chuva e volta pra gente pelo ar, pela água, pela comida e não dá para abrir o guarda chuva para isso. Quem lucra com o plástico precisa interromper esse ciclo.

Olha só este filme!
A Melhor Mãe do Mundo (2025)
Direção: Anna Muylaert.
Onde Assistir: Cinemas.
Sinopse: Acompanha uma catadora de recicláveis chamada Gal que decide fugir dos abusos do marido Leandro após tentar denunciá-lo e ser ignorada pela polícia. Focada em proteger seus filhos, a mulher abandona a casa, coloca suas duas crianças pequenas na carroça e as leva numa jornada pela cidade de São Paulo. Tentando garantir a inocência dos filhos, Gal os faz acreditar que estão vivendo uma grande aventura, mesmo diante de inúmeros sacrifícios e perigos da rua.