
Rios Voadores: e eu com isso?
Por: Aline Dias
Quando a gente fala da Amazônia parece longe, né? Se uma borboleta bater asas na Amazônia causa um furacão no Texas. Longe. Bem Longe. Mas e se eu te disser que menos importante do que o efeito borboleta é o efeito desmatamento? E que ele está bem na sua casa, que isso afeta diretamente no seu prato de comida?
Isso acontece porque a floresta Amazônica influencia diretamente nas chuvas de todo o Brasil e as chuvas influenciam na comida. Sem chuva não tem agricultura, e sem Amazônia não tem chuva.
E não adianta fingir que não se importa porque tem “nojinho” de salada. A agricultura sustenta desde a ração do seu hambúrguer até aquele biscoito que você esconde no armário.
“Por mais que a gente ouça falar da importância da Amazônia para o equilíbrio do clima, as pessoas pensam que seja um problema lá longe, e quando você fala dos rios voadores, o problema vem para perto”, destaca a professora de geografia Edna Fonseca.
Mas o que são rios voadores? São grandes blocos de massa úmida na atmosfera que saem da Amazônia carregados pelos ventos, irrigando o resto do Brasil. “Cada metro quadrado de floresta manda para a atmosfera, por dia, 4 litros de água. Imagina essa quantidade multiplicada, por baixo, pelos 6 milhões de km² de floresta. É uma quantidade fabulosa de água!”, explica o ecólogo e professor da Universidade Federal do Pará Antônio Carlos Lôla da Costa.]

E por que a implicação na agricultura? Porque estudos apontam que a agricultura depende de água das chuvas. “Se você retira a floresta, automaticamente você vai eliminar a disponibilidade de água para as chuvas. Portanto, as florestas têm um papel fundamental na preservação, na alimentação dessa água que proporciona a chuva”, salienta Lôla da Costa.
Infográfico: Como ocorrem os rios voadores?

*O fluxo dessa umidade é tão grande que pode ser comparado à magnitude do Rio Amazonas!
Este infográfico apresenta uma ilustração tridimensional e colorida do continente sul-americano mostrando como funciona o ciclo da água. O mapa está renderizado em tons de verde para representar as florestas, marrom para as montanhas, e azul para os corpos d’água, com nuvens brancas e azuis espalhadas sobre diferentes regiões.
O infográfico contém seis pontos numerados com caixas de texto coloridas explicando cada etapa do processo:
Ponto 1 (caixa roxa): Localizada na região da Floresta Amazônica, explica que “A árvore bombeia a água desde o solo até a atmosfera.”
Ponto 2 (caixa azul): Posicionada no norte do continente, descreve: “Lá no alto, a água que saiu da terra e passou pela árvore vira nuvem e chuva.”
Ponto 3 (caixa roxa): Na região norte, informa que “A umidade que sobrou da formação das nuvens vai sendo transportada pelos ventos alísios (um jeito bonito e geográfico de chamar ventos constantes) de leste para oeste.”
Ponto 4 (caixa vermelha): No centro do continente, indica: “O processo da chuva – árvore – chuva – vento vai se repetindo em toda Amazônia.”
Ponto 5 (caixa rosa): Na região dos Andes, explica: “Quando chegam à Cordilheira dos Andes, os ventos alísios encontram uma barreira natural. Mas a natureza do vento é inventar, então o vento venta pro lado do sul e do sudeste, com chuva e tudo, bombeando água para o resto do país.”
Ponto 6 (caixa roxa): No sul do Brasil, conclui: “A chuva dos rios voadores irriga até o Pantanal brasileiro.”
O infográfico demonstra visualmente como a água circula desde a Amazônia até outras regiões da América do Sul através dos “rios voadores” – correntes de umidade atmosférica que transportam vapor d’água das florestas tropicais para outras áreas do continente, ilustrando a importância da floresta amazônica para o regime de chuvas em todo o subcontinente.
| Olha só esse filme! Fitzcarraldo (1982) Direção: Werner Herzog. Onde Assistir: MUBI (rotativo), Apple TV (aluguel). Sinopse: Baseado em fatos reais, um homem obcecado por ópera tenta transportar um navio por terra na Amazônia, em uma metáfora sobre a relação entre sonho e destruição. |
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Professora de geografia há 25 anos, Edna Fonseca conta que os alunos dela, em Iúna, conseguem entender sobre o fenômeno dos rios voadores e a importância na preservação das florestas para a agricultura porque isso está no cotidiano deles.
“Quando a gente fala que a nossa região é afetada, a gente dá exemplo de quando falta água no momento de estiagem e como isso impacta a agricultura. A gente fala da importância dessa chuva que vem de longe, e acaba despertando o interesse dos alunos”, explica a professora. Ela ainda enfatiza que quem mais sai prejudicada é a agricultura familiar, e que há questões econômicas decorrentes da falta de água. Se não chove, tudo aumenta de preço porque produz-se menos comida.
Edna ressalta que não tem rios voadores no Espírito Santo. “É claro que o Espírito Santo também tem a evapotranspiração, produz umidade, mas o fenômeno chamado rios voadores é devido ao grande volume de umidade que se forma na região amazônica”, conceitua.
“No Espírito Santo a gente recebe essas massas de ar, que são de extrema importância para nossa agricultura, para nossa pecuária, para nossa economia, para nossa sociedade”, analisa. O nosso Estado está na rota de influência dos rios voadores que vêm da Amazônia. “Essa umidade é transportada por massas de ar que contribuem com o regime de chuva no estado todo”.
“As florestas absorvem carbono e transformam em biomassa no seu crescimento. E essa retirada do carbono evita que o efeito estufa seja intensificado. O efeito estufa intensificado é o principal motivo da alteração da temperatura do planeta, das mudanças climáticas. Ou seja, a floresta funciona como um regulador térmico do planeta. Se você retira a floresta, mais carbono vai ficar disponível na atmosfera, vai intensificar o efeito estufa e as mudanças climáticas vão cada vez ser mais sentidas no planeta.
Antônio Carlos Lôla da Costa, ecólogo, professor, doutor em Engenharia Ambiental, pesquisador do Museu Goeldi, no Pará, primeiro parque zoobotânico brasilieiro e instituição científica mais antiga da Amazônia, reconhecida mundialmente.
O grande problema é que quem decide não é o cientista, é o político. Então nós temos o conhecimento, mas não temos o poder de decisão. O que precisa? Precisam ser cumpridas simplesmente as leis básicas, dignas de preservação do meio ambiente.”
Sabe o que mais me irrita? Hollywood nunca fez um filme decente sobre rios voadores! Faz 47 filmes do Homem-Aranha, mas um épico sobre as correntes de vapor que conectam a Amazônia ao resto do continente? Naaaada! Craaac! Aí está o problema de vocês, bípedes teimosos: obsessão pelo tangível! Os rios voadores são como os planos-sequência da natureza – uma tomada contínua que liga tudo -, mas vocês preferem os cortes secos de Rrrróllywood, sem entender que é TUDO uma coisa só! GRAAAAA! E vamos combinar? Onde uma aranha podendo fugir vai morder um humano frangote? Vocês tem um gosto horrível.


A demarcação de terras indígenas tem sido assunto no Supremo Tribunal Federal e no Congresso Nacional. Muitos deputados são fazendeiros, representantes da chamada “bancada ruralista”. Há, entre eles, um entendimento de que seja melhor para os negócios rurais uma maior possibilidade de desmatamento.
Assim, essa parte dos deputados, que cada vez cresce mais, tem buscado uma flexibilização em leis ambientais, que são justamente as leis que protegem as florestas. Inclusive as que são terras indígenas.
Os cientistas e ambientalistas, em geral, sabem que a preservação das florestas está ligada inclusive às chuvas, que são importantes para a agricultura. Para embasar o debate da demarcação de terras indígenas no STF, o grupo de pesquisa em ecologia tropical do Instituto Serrapilheira, formado por cientistas de várias universidades brasileiras e estrangeiras, produziu um estudo que comprova a importância de terras indígenas na formação dos rios voadores e sua relação com a irrigação de terras agrárias. O estudo foi publicado no final de 2024 em forma de nota técnica.
| O que diz o estudo: . Chuvas As terras indígenas da Amazônia influenciam as chuvas que abastecem 80% da área das atividades agropecuárias no país. Contradição Estados como Rondônia e Mato Grosso figuram entre os nove estados mais influenciados por essa chuva, ao mesmo tempo que estão entre os estados que mais desmataram florestas desde 1985 (34 e 32% de perda, respectivamente; MapBiomas, 2024b), uma clara contradição que destaca a urgência da conservação de florestas, em especial em terras indígenas, para a manutenção de seus serviços ambientais. Comida na mesa As chuvas provenientes dessas terras indígenas contribuem diretamente para a segurança alimentar nacional, já que grande parte da produção dos pequenos produtores agrários é destinada ao mercado interno e muitas dessas terras estão no fluxo dos rios voadores. Rios voadores Até 30% da chuva média que cai sobre as terras agropecuárias do país está diretamente relacionada à eficiente reciclagem de água nas terras indígenas da Amazônia e à geração do vapor d’água transportado pelos “rios voadores” para o sul da Amazônia. Florestas Na Amazônia Brasileira, 27,5% das florestas maduras estão localizadas em terras indígenas. Agricultura A agricultura e a pecuária estão entre as atividades que mais consomem água no Brasil, ou seja, a chuva é condição fundamental para o exercício dessas atividades. Para onde vai a água? A escalada do desmatamento (levando diretamente à diminuição de árvores), aliada ao aquecimento do planeta (diminuindo indiretamente a disponibilidade de água), pode quebrar o ciclo de reciclagem da água (do rio para a árvore – da árvore para a atmosfera – da atmosfera vira chuva e volta para a árvore), acarretando o colapso das florestas do interior da Amazônia e a redução significativa da umidade que é redistribuída para outros países da América do Sul e para diversas regiões do Brasil. . Fonte: Nota técnica fornecida pelo Instituto Serrapilheira, 2024. |