Foto do ator Marcos Palmeira e da atriz Malu Mader, ambos sorridentes, em ponto elevado de propriedade rural ao entardecer. Ele de barba e cabelo grisalhos e camisa branca; ela com chapéu de palha e camisa rosa clara, cabelos e olhos castanhos. Ao fundo, extensa plantação verde em fileiras regulares ocupa o plano médio, enquanto vale com rio serpenteante cercado por mata nativa preservada se estende pela paisagem.
Malu Mader e Marcos Palmeira durante as gravações de “Renascer” em Linhares. O ator brinca sobre o personagem querer implantar uma agrofloresta na propriedade. Foto postada no instagram do ator.

Por: Aline Dias

ENTREVISTA COM MARCOS PALMEIRA
“Não acredito que a gente deva investir em commodities em vez de investir em alimento”, cravou o ator Marcos Palmeira. Ele é ambientalista e um grande produtor de alimentos orgânicos. Gosta de poder comer o que planta em sua fazenda, o Vale das Palmeiras. Em entrevista para a Revista Cine.Ema, você vai conhecer um pouco mais da faceta ambientalista do ator, seu trabalho plantando mais de 100 mil árvores e como tudo isso começou.

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Revista Cine.Ema: De onde veio seu interesse pela preservação ambiental?

Marcos Palmeira: Na década de 80, entrei em contato com as comunidades indígenas, com nossos povos originários. Ali eu entendi essa relação do homem com a natureza e me transformei num ambientalista, ainda sem muita consciência, uma coisa muito empírica. Com o tempo, eu adquiri a Fazenda Vale das Palmeiras e descobri que ninguém comia o que plantava. Ali entendi realmente onde estava o nosso problema: um alimento desconectado da saúde. E aí eu mudei toda a minha cabeça. Isso já tem 30 anos mais ou menos.

RCE: Na época da novela Pantanal (2022), sua propriedade já tinha duas Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN) e ainda ia plantar mais árvores nativas da Mata Atlântica. Como foi esse processo? 

MP: Além das duas RPPNs, plantamos 120 mil mudas em parceria com o Instituto Terra de Preservação Ambiental (ITPA). A fazenda hoje está totalmente em processo de recuperação, porque ela só vai estar recuperada quando essa mata realmente ganhar vigor, ganhar força. Nós já demos um belo passo.

Você conseguiu restaurar mais florestas? Serviu de exemplo para amigos fazendeiros?

Eu vou fazendo o meu trabalho no dia a dia, sem me preocupar em ser ou não um exemplo. Essa é uma luta individual de cada um, da sua consciência, da sua possibilidade. Ter uma área totalmente degradada me ajudou a fazer o caminho da preservação. Talvez, se eu tivesse uma área já bem preservada, hoje estivesse só mantendo essa preservação ou enriquecendo o manejo. 

De onde veio a vontade de produzir orgânicos? 

Eu tenho uma origem na roça. Meu avô foi um grande fazendeiro, produtor de leite, de cacau e de gado de corte. Ele sempre se incomodou muito com a questão da monocultura, nunca entendeu uma terra produzir uma coisa só. Ele achava que a fazenda sempre teria que ter uma variedade muito grande de coisas. 

Quando eu comprei a Vale das Palmeiras, eu percebi que não se comia o que plantava. E por que isso? Porque se usava agrotóxico, adubo químico. E isso estava contaminando todo mundo. Foi aí que descobri esse maravilhoso mundo da agroecologia, da agricultura orgânica.

Como é usar a sua imagem em prol da preservação ambiental?

A questão da minha imagem é uma coisa natural. Eu dou minha cara a tapa, tenho meu rosto nos meus produtos. Eu acredito realmente nisso que eu faço. Brinco que a minha cabeça está certificada.

Não acredito mais num produto convencional como solução para acabar com a fome no mundo. Não acredito que a gente deva investir em commodities em vez de investir em alimento. O foco está muito errado. Não vai ser produzindo mais soja transgênica, mais milho transgênico, que a gente vai acabar com a fome no mundo. É uma conta bastante simples. Hoje eu produzo leite, café, também tenho abelhas meliponas… a fazenda é viva!

Como você faz para que o trabalho com pecuária e gado não seja concorrente à preservação do meio ambiente? 

A pecuária leiteira com a introdução da agrofloresta é uma grande forma de regeneração. O gado não é tratado como um invasor, ele convive em harmonia com a mata e a floresta. A gente trabalha para que ele possa pastar e comer folhas e flores. Isso é pecuária orgânica, uma visão mais integrada. É um gado que não usa nenhum tipo de antibiótico, tratamos com homeopatia. A gente só entra com antibiótico quando tem algum risco de morte. 

Hoje vemos uma geração que muitas vezes não sabe de onde vem o que come – compra no supermercado, consome fast food ou acaba optando por ultraprocessados (em vez da comida de verdade), pela facilidade de acesso. Como podemos despertar nos jovens essa conexão com a terra e com a importância de cuidar do meio ambiente? 

A gente tem uma distância muito grande, né? As pessoas têm muito pouco acesso a alimento orgânico. O orgânico é mais caro? Depende, eu acho que ele é um preço mais justo. Quando você compra um produto orgânico você está favorecendo diretamente o produtor. Um produto convencional não. São várias mãos intermediárias nesse lugar. São vários rios que estão sendo poluídos, várias áreas sendo degradadas. 

“Se não produzir transgênico, não vai acabar com a fome do mundo”. O mundo continuou passando fome. Tem uma conta que não fecha, né?

Essa coisa do fast food, da comida industrializada, é uma indústria que se beneficia disso. Uma indústria muito grande que não está ligada na sua saúde. Para mim, o alimento é um remédio. Então, cuidar do meio ambiente é cuidar da gente, cuidar da nossa qualidade de vida. Não é preservação só de uma espécie, é a preservação de todas as espécies, e estamos inclusos nisso.

Sem uma atenção para alimentação mais saudável é a qualidade de vida do homem que vai ficar mais difícil. Isso vai ser tanto para o rico quanto para o pobre. A gente precisa acordar agora e repensar o manejo que a gente quer para nossas áreas, o apoio que a gente tem que dar para as comunidades indígenas, quilombolas, para os pequenos produtores, ribeirinhos, que são as pessoas que estão realmente focadas em preservar porque vivem diretamente dessa floresta.

E nós também vivemos nessa floresta, só que a gente não tem essa sensação. Na cidade, você liga o ar-condicionado e fala, “tudo bem, deixa esquentar, eu estou no meu ar-condicionado”, “vou comer essa comida aqui, eu tenho acesso à comida”. Mas de onde vem essa comida? A gente precisa se perguntar muito isso! 

São essas coisas que a gente tem que ficar atento nesse discurso da economia, “vamos acabar com a fome”. “Se não produzir com agrotóxico, não vai acabar com a fome do mundo”. O mundo continuou passando fome. “Se não produzir transgênico, não vai acabar com a fome do mundo”. O mundo continuou passando fome. Tem uma conta que não fecha, né? É a mesma coisa da guerra que está acontecendo no mundo neste momento. Não adianta. Você não vai resolver o problema da guerra com mais guerra. A gente fica acreditando em história da carochinha.