Fotografia documental quadrada com fundo digitalmente removido mostrando oca tradicional indígena e pequeno porte construída em pau a pique (paredes de barro entrelaçado em varas), tons bege-terrosos e cobertura de palha seca em telhado inclinado. Homem indígena de pele média-escura, cabelos pretos curtos, veste camiseta cinza com texto impresso, bermuda floral rosa/vermelha e chinelos, posicionado na entrada de madeira rústica da construção, postura ereta e olhar direto para câmera. Vegetação amazônica exuberante verde emoldura parcialmente a estrutura no contexto preservado do recorte, sob céu esbranquiçado. Atrás da oca, mata.

Por: Luã Quintão

Filmes locais gravados na Mata Atlântica registram o que os próprios cineastas vivenciam no dia a dia, como forma de proteção da natureza e da memória coletiva dos povos tradicionais.

Uma ideia, um celular e microfones de lapela. Lino Guarani é lembrado com carinho pela comunidade da aldeia Três Palmeiras, localizada em Aracruz, norte do Espírito Santo. A aldeia fica às margens da rodovia ES-010. A entrada se dá por uma ladeira que, devido à sua curvatura, cria um cenário de mistério. À medida que se sobe entre as árvores de Mata Atlântica, uma paisagem de natureza se revela aos poucos, até se encontrar com um exuberante Centro Cultural, construções de barro e um mirante onde se observa o mar. 

Nesse cenário, Lino passou meses trabalhando no primeiro documentário dirigido por ele. “Nhandereko – o nosso jeito de viver, contar e resistir” foi filmado na aldeia em 2024 por sua esposa, Mirian Martins, e fotografado por Jaciane Mendonça Martins. O celular foi o principal equipamento de trabalho. Além de ter sido utilizado na captação de imagem e áudio, também foi por onde o documentário ganhou vida. Lino, sentado em uma cadeira de praia, demorou dias para editar o filme em uma tela com visor de 6,1 polegadas.

Jovem indígena de perfil, pele morena e cabelos pretos curtos, vestindo camiseta cinza, concentrado em smartphone que segura horizontalmente com ambas as mãos. A postura corporal - cabeça baixa, ombros curvados, dedos tocando ativamente a tela. Fundo natural desfocado em tons de verde, marrom e ocre sugere paisagem de floresta.
Lino Guarani. Foto: Luã Quintão.

“Foi um mês fazendo e refazendo. Editei cada parte por vez até unir tudo. Depois, revi algumas vezes, fiz alguns cortes. Às vezes sentia que alguma coisa faltava, outras vezes achei que assuntos estavam fora do ponto. Depois editei o áudio. Tive algumas dificuldades, mas aprendi muito com esse filme, em como ligar os temas para fazer sentido. Acredito que é assim, fazendo, que, com o tempo, a gente melhora a capacidade de produzir filme”, comentou.

Onde assistir
Onde Assistir
“Nhandereko: O Nosso Jeito de Viver, Contar e Resistir”:
Canal do YouTube: @lino_guarani

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Dois indígenas em interação próxima: à esquerda, um homem de costas com tórax nu ornamentado por pinturas corporais pretas geométricas, cocar amarelo e bermuda preta, com uma bolsa verde e amarela; à direita, homem sem camisa de calça jeans, com camisa vermelha amarrada na cintura, usando cocar de penas pretas, colares cruzados brancos, c segurando longo instrumento tradicional de madeira clara (arco/lança/bastão). Ambiente externo arborizado com chão asfaltado, terceira pessoa de camiseta preta observando ao fundo entre árvores verdes sob iluminação natural difusa.

“Nhandereko” tem 23 minutos e mostra a história de Nhamandu’i e a luta contra o marco temporal. Nhamandu’i não é um personagem, mas uma presença que chega todos os dias pela manhã, com o sol, para iluminar e abençoar o dia. O entendimento sobre Nhamandu’i é, de certa forma, profundo, porque talvez tenha mais a ver sobre sentir para além das palavras, mas não sem elas, até porque Nhamandu’i está presente nos cantos Guarani, tão antigos que é difícil saber a data de origem, mas que até hoje são cantados na Opy’i.

E é na Opy’i onde o filme começa. Esse é um lugar considerado sagrado para o povo Guarani. Lá dentro não se acende luz elétrica; o que ilumina são as chamas das velas e da fogueira. O documentário retrata um fluxo de vida, fazendo o encontro do passado com o presente. Ao mesmo tempo em que “Nhandereko” mostra detalhes importantes da cultura indígena, também retrata momentos de resistência desses povos.

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Em 2024, a votação da Proposta de Emenda à Constituição 48/2023, também conhecida como PEC do Marco Temporal, mobilizou povos indígenas de todo o país. Nessa mesma época, Lino, Marian e Jaciene, com o celular, documentaram um protesto na rodovia ES-010, na altura da aldeia Boa Esperança, enquanto também se integravam à mobilização. 

O filme é todo falado na língua guarani e legendado em português. O documentário mostra idosos, adultos, jovens, homens e mulheres que ocupavam a pista, desde os primeiros raios de sol, até o anoitecer. 

A ideia de fazer essas gravações surgiu com a vontade de se criar uma produtora na aldeia. “Guarani Reko” é o nome do projeto que, de acordo com Lino, trabalha com audiovisual de resistência da cultura guarani e preservação da Mata Atlântica . O nome Reko tem dois significados: cultura e vida guarani. 

“É um projeto que eu pensei em fazer como produtor, para que eu possa produzir através desse contexto Guarani Reko, que é o nosso jeito de viver, contar e resistir. Nosso território fica na Mata Atlântica e aqui no Espírito Santo tem pouca mata em preservação. Quero mostrar nos filmes que a floresta é nossa casa e que a gente está cuidando da Mata Atlântica. A gente preserva a nossa cultura e cuida da mata”, disse. 

O processo de criação do Lino parte de uma experiência vivida, o que torna a produção ainda mais significativa em âmbito local. É um filme que fala de guarani para guarani, porque nasce de um olhar interno, e não externo. Mostra que a cultura não é estática e que se encontra com o mundo moderno, mas que mesmo assim resiste e se reinventa.

“Meu interesse em fazer audiovisual surgiu quando eu vi que a gente estava perdendo nossos saberes mais antigos. Então eu pensei em fazer esse filme para deixar como registro, como memória, para que a geração mais nova veja para aprender também com esses registros”, explicou Lino Guarani.

Não tão longe da aldeia Três Palmeiras, Nathan caminha pela Praia da Biologia. Tanto a restinga quanto o mar são áreas de preservação. E é da Área de Preservação Ambiental (APA) Costa das Algas que começa o documentário “Tambores e Casacas na Cultura Ancestral de Aracruz”.

Nathan de Oliveira tem 13 anos e mora em Itaparica, uma comunidade às margens da APA. No início do filme, quase se pensa que ele é um personagem, mas, nos minutos seguintes, logo se entende que Nathan representa ele mesmo. Beth Areias coordenou as gravações do documentário, lançado em junho deste ano. Ela também aparece no filme e é quem leva Nathan para uma jornada de descobertas sobre a originalidade na forma de se confeccionar instrumentos de congo no município de Aracruz.

“O Nathan é um garoto muito envolvido com a comunidade, que está sempre andando de bicicleta e fazendo perguntas. Sempre observei ele com carinho, conversei com a mãe dele e disse: “olha, Nathan, você vai fazer um documentário.” Ele logo aceitou e partimos para as gravações, saindo aqui da praia, até a aldeia Tupinikim”, explicou Beth Areias.

O documentário “Tambores e Casacas na Cultura Ancestral de Aracruz” mostra a originalidade na confecção de instrumentos ancestrais como casacas artesanais, que são feitas de tagibubuia, e os tambores, feitos de siriba e recobertos de couro de boi preso por tarugos, uma herança da ancestralidade Tupinkim. O vídeo foi produzido pela Sociedade Cultural Blocongo, com coordenação de Beth Areias e roteiro de Renato Fraga.

No filme, Beth e Nathan se encontram com anciões detentores de saberes tradicionais. Eles têm guardado por muitos anos o modo de se fazer os instrumentos do Congo, desde a escolha da madeira, até os detalhes dos grafismos indígenas que decoram os instrumentos musicais. Cada parte do processo de produção das casacas e dos tambores é feita com técnica e respeito pela natureza. Galhos de uma madeira encontrada nos brejos é retirada com cuidado, para que a árvore mãe não seja danificada e possa brotar novamente alguns meses depois. A Tagibubuia é a gênese da casaca. Há o momento certo para o manejo, assim como para os cortes que darão forma característica ao instrumento.

O Congo de Aracruz possui particularidades. O município foi o primeiro a ter uma banda de congo no país, de acordo com o livro “Registros do Congo de Aracruz“, de Luiza Medina. Também é defendida a ideia de que surgiu a partir da convivência entre negros e indígenas. Mestre Olindo, da aldeia indígena Caieiras Velhas, disse que o tambor é característica dos povos indígenas Tupinikim, já o Congo é a mistura. 

Esses são alguns detalhes que chamaram atenção de Beth Areias. Maranhense, de espírito que se inspira pela música, herdou de seu avô, que tocava pífano por terras nordestinas, a paixão pela arte, principalmente as de expressão popular. Fundou um grupo parafolclórico do Congo e ajuda a mantê-lo ativo. É o movimento de vida e o fluxo do cotidiano que a inspiraram a coordenar esse documentário.

“Eu sou apaixonada pelas casacas de Aracruz e então venho acompanhando alguns mestres desde 2000. Eu passei a conhecê-los e ficamos próximos. Todas as vezes que vou à sede da cidade, vejo eles sentados embaixo da mangueira e paro para cumprimentá-los. Meu interesse vem dessa aproximação. Por isso, pensei em registrar tudo. Para mim, fazer esse registro é uma forma de preservação, não somente de uma cultura, mas também da natureza, porque estamos integrados a ela, nós somos meio ambiente”, disse.

Em 2022, estivemos na escola Arandu Retxakã, em Aracruz, descobrindo um pouco mais sobre a conexão dos povos indígenas com a natureza. Da oficina de vídeo com o instrutor Gui Castor saiu este filme gravado completamente em idioma indígena.

]Sabe essa sensação de se entediar rolando o feed o dia todo? Então, eu não sei. KAKAKA. Eu, Jack Sparrot, viajei o céu dos 7 mares, descobrindo novas histórias, culturas, alguns pássaros desmiolados e muitos humanos que pareciam pássaros. O mundo está mais interessado em descobrir os mistérios que habitam a sua rua do que um romance desastrado e repetido de Rrrróllywood. Pronto, falei! GRAAAAA! Marujos! HOMEM AO MAR!!!

A ilustração apresenta um papagaio pirata antropomórfico em estilo cartoon, numa espécie de paródia do personagem Jack Sparrow, do filme Piratas do Caribe. O personagem tem plumagem verde na cabeça e pescoço, peito vermelho com padrão em zigue-zague, e asas azuis. Usa um chapéu de pirata preto tradicional decorado com uma caveira rosa e ossos cruzados. O papagaio está sentado num poleiro e ao seu lado há um microfone vintage dourado com detalhes vermelhos.