Editorial:
Regenerar

Uma menina me mostrou um desenho. Com apenas oito anos, já sabia o que eu havia esquecido de saber. No papel, uma árvore brotava em um prédio abandonado. “É a minha cidade daqui a dez anos.” Suas mãos pequenas seguravam o lápis como quem segura uma semente.

Fiquei com aquele desenho entalado na garganta, como se fosse um osso que eu precisasse engolir para entender alguma coisa sobre mim mesma. A criança via brotos onde eu via apenas a ferida do concreto. Talvez porque ela ainda habite o tempo anterior ao desencanto. Esse tempo em que uma rachadura na parede não é fim, mas começo – a fresta exata por onde a luz se derrama. 

Nós, os “adultos”, perdemos essa geografia íntima entre o que é e o que pode vir a ser. Olhamos as manchetes como quem olha lápides, e esquecemos a criança que habita dois mundos ao mesmo tempo: o que existe e o que pode existir. Tantos povos já provaram que a cidade não precisa ser antônimo de floresta. Que entre o asfalto e a selva existe uma conversa possível, uma aliança que perdemos de vista mas que nunca deixou de existir.

Ao longo desses 10 anos de Festival Cine.Ema, tenho colecionado essas histórias. Gente que planta mesmo quando dizem que a terra morreu. Jovens que filmam não o fim do mundo, mas a obstinação dos começos. Comunidades que fazem do terreno baldio um jardim compartilhado. São gestos que me ensinam que a esperança não é sentimento, é prática. São pessoas que encontraram na ferida o lugar exato da cura. Que entenderam que as mesmas mãos que destroem são as que podem refazer. Que descobriram que viver a natureza não é fugir da cidade, mas encontrar (e fortalecer) a natureza que sempre esteve lá, esperando.

O cinema nos ensina isto: toda imagem pode revelar camadas invisíveis de vida. Através das telas, aprendemos a ver nossa própria realidade com outros olhos – mais atentos, mais esperançosos, mais regenerativos. Porque regenerar é verbo que só se conjuga no presente. É quando tudo parece perdido que a vida revela sua teimosia mais bonita: a de brotar justamente onde ninguém espera. Do concreto, da ruína, do que julgávamos morto para sempre. Não somos visitantes da natureza. Somos a própria natureza pensando sobre si mesma, sonhando com outros jeitos de existir.

Quem sabe a menina estivesse certa desde o início. Quem sabe as árvores realmente cresçam dentro dos prédios quando paramos de acreditar que isso é impossível. Que cada rua pode ser um mundo de biodiversidade, que junto caminha para o amanhã.

A história ainda está sendo escrita. E a caneta está na sua mão.