“É melhor ser doido do que alimentar um

pesadelo que vai explodir na nossa cara”

Por: Anny Giacomin e Ricardo Aiolfi

O líder indígena, escritor e ambientalista Ailton Krenak fez um convite radical durante o seminário “Desnaturada: Chamado Ancestral”, no Parque Cultural Casa do Governador, em Vila Velha: é hora de ter coragem de ser chamado de “louco” se isso significa despertar para outras formas de viver e evitar o colapso que se aproxima. O evento foi realizado pela Secult-ES, entre 14 e 16 de maio

Uma das imagens mais marcantes da palestra foi a descrição das cidades como “ruínas florestais”: metrópoles construídas literalmente sobre florestas destruídas, transformadas em máquinas de consumir energia.

Krenak lembra que 80% da população mundial vive em centros urbanos que produzem muito pouco do que consomem. Tudo vem de fora: comida, energia, matéria-prima. O resultado? Uma humanidade desconectada de suas fontes de vida, em que crianças não sabem de onde vem o leite que bebem.

Esse modelo alimenta a “sociedade da mercadoria”, em que viver virou sinônimo de consumir. A consequência é devastadora: já consumimos mais recursos do que o planeta consegue regenerar em um ano.

Retrato de Ailton Krenak. Homem indígena maduro com pele morena, cabelos pretos-grisalhos médios, em momento de riso genuíno com cabeça inclinada para trás, olhos semicerrados e sorriso largo que cria rugas de expressão. Usa cocar circundando a cabeça - faixa têxtil com grafismos geométricos laranja/preto e fileiras verticais de plumas claras (branco-creme) e escuras. Veste jaqueta de cor caramelo sobre camisa branca.
Ailton Krenak. Foto: Assessoria do Museu da Imagem e Som do Ceará

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O conceito que nomeia o seminário explica como chegamos ao atual “estado de estranhamento”, uma situação em que vemos a natureza como algo que está “ao nosso entorno”, quando na verdade “nós somos a natureza”.

A cultura moderna criou uma abstração tão grande que nos fez esquecer nossa condição orgânica. Perdemos a capacidade de reconhecer que nossos corpos são feitos da mesma matéria da Terra e que dependemos completamente dela para existir.

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“É melhor ser considerado sonhador do que continuar alimentando um pesadelo que pode se tornar irreversível”. Um chamado que ressoa profundamente com nossa jornada no Cine.Ema: usar histórias para regenerar imaginários e reconectar pessoas com a vida que pulsa ao nosso redor.

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O “sonhar acordado” que Krenak propõe não tem nada de escapismo. É sobre expandir nossa capacidade de imaginar outras formas de viver, “aprendendo com a terra, tomando a terra como professora”. Essa é a melhor pedagogia que existe, superior a qualquer aplicativo ou tecnologia educacional.

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A solução não é necessariamente abandonar as cidades, mas “reflorestar nossos próprios pensamentos”. Isso significa criar espaços urbanos que acolham a floresta: hortas urbanas, rios recuperados, construções que respiram junto com a natureza.

Krenak compartilhou o exemplo inspirador de um coletivo na França que transformou oito hectares urbanos em canteiros orgânicos, provando que é possível “outro jeito de habitar” os espaços das cidades.