Um Giro Pelo
Coração da Ilha

Crônica: Lívia Corbellari

Andar pelo Centro de Vitória é como entrar num filme de sobreposições. Um lugar onde os tempos parecem se desencontrar em cada esquina, misturando passado e presente em planos longos e cortes secos. Cada rua é uma sequência, cada ladeira uma montagem entre o que foi e o que ainda pulsa. 

A primeira cena se passa na Beira-Mar, que se estende como uma terceira via, líquida, silenciosa. À direita, o trânsito dos carros; à esquerda, o vaivém lento dos navios. Os carros buzinam e aceleram, os navios deslizam. Um filme em câmera lenta ao lado do caos urbano.

Deixo a orla e sigo em direção ao Centro. Atravesso a Praça Costa Pereira devagar, como quem busca os detalhes que a pressa normalmente apaga. Um homem solitário aproveita a sombra das árvores e o vento que sopra fresco. No banco ao lado, um grupo de jovens mergulha em suas telas, alheio à cena. Eu também capturo em frames a cidade, mas prefiro salvar as memórias no meu corpo.

Imagem da Catedral de Vitória em perspectiva de baixo para cima mostrando sua fachada em tons bege claro sobre céu branco, acentuando a verticalidade e imponência da edificação, com as torres convergindo em direção ao alto.

Sigo por uma rua estreita, tentando escapar do ruído dos carros. Vou pelas calçadas feridas ouvindo apenas os gritos dos grafites que cobrem os muros. As paredes falam, se a gente souber escutar. Cada rastro de tinta é um plano aberto da cidade reinventando sua própria pele.

O Centro é esse pedaço antigo e pulsante da ilha que a gente acha que conhece, mas que vive mudando de rosto. Subo a escadaria que carrega nome de mulher. Me pergunto se o fantasma de Maria Ortiz ainda ronda por ali, protegendo a cidade silenciosamente. Chego ao bar na beirada da escadaria. Um gato cruza a rua e me encara. Aceno com a cabeça, como se ele fosse parte do roteiro.

Avisto a Catedral, mas sigo rumo ao Palácio Anchieta. Passo pelo Sônia Cabral, pelo Casarão da Biblioteca. Em cada passo, um plano de fundo novo, uma trilha sonora diferente, buzinas, passos apressados, um flanelinha cantando. É como se eu estivesse dentro de um documentário sobre meu próprio lugar.

Subo, desço, passo por baixo do Viaduto Caramuru, fazendo o plano e o contraplano entre luz e sombra. Finjo ser estrangeira nessas ruas que conheço tão bem. Das janelas antigas aos becos cobertos de histórias, cada fachada parece ter algo a dizer.

No Parque Moscoso, paro outra vez. Aqui, o silêncio tem outro som. Muita gente atravessa esse lugar só para cortar caminho, só de passagem, mas eu insisto em permanecer.

Termino como comecei, na sombra das árvores, ouvindo o farfalhar das folhas como o virar das páginas de um livro que eu me sento para ler. Ler a cidade. Na minha frente, um casal de velhinhos passa de mãos dadas, se afastando lentamente do enquadramento.

Nossos territórios ainda têm muito a contar, basta que alguém pare para ouvir. E você, já escutou sua cidade hoje?