No processo criativo do cantor André Prando, o simples ganha dimensões extraordinárias e reveladoras.

Por: Anny Giacomin e Ricardo Aiolfi
Seja em qual canto do Espírito Santo em que você estiver, é provável que você já tenha esbarrado com André Prando por aí. Num passeio de bike na orla, num rolê qualquer, curtindo o friozinho do Caparaó ou numa mesa de bar na Rua da Lama – é quase uma lenda urbana: o cantor aparece em todo lugar. Não necessariamente se apresentando, mas simplesmente vivendo, observando, absorvendo. É exatamente dessa troca espontânea com as pessoas, a natureza e cada ambiente que nasce a força do seu processo criativo.
Na música “Voltinha de Bike”, por exemplo, o que poderia ser apenas um deslocamento urbano se torna contemplação do pôr do sol, filosofia de calçada, encontro íntimo com a natureza que pulsa em meio às ruas de asfalto. Conheça agora um pouquinho do processo criativo do cantor.

“Eu costumo dizer que sou um artista e uma pessoa viciada em viver. Vivo muito as noites, frequento festas, os rolês da cidade. Gosto de encontrar as pessoas, de me permitir sair sozinho e deixar o que tiver de acontecer, acontecer. E assim os encontros acontecem, e as experiências também.
Digo isso porque a vida, para mim, é o material de inspiração para a minha arte. As músicas que eu escrevo partem muito de uma experiência autobiográfica, mas sempre conectadas ao extraordinário, às viagens, às questões que estão para além do palpável, no campo do sutil. São músicas que pegam, entre muitas aspas, o banal e o transforma em coisas profundas.
Me considero um artista com a antena sempre ligada, de forma que às vezes eu estou contando uma coisa que parece autobiográfica, mas é a história de um outro, ou uma fantasia – tudo isso é possível. Costumo também inserir elementos do lugar onde vivo nas músicas, às vezes citando um lugar, uma cidade, uma lenda, personagens ou características locais.
Tem uma música que escrevi a partir de experiências na Serra do Caparaó, cheio de cachoeiras, trilhas. Eu adoro estar no mato, na natureza, é onde me sinto como um aprendiz. Essa música se chama “Kaluanã, o Grande Guerreiro”, inspirada numa criança de 4 anos chamada Kalu, filho de um casal de amigos. Vi ele aprendendo a andar e a falar as primeiras palavras.

Estava começando a escrever sobre a natureza do Caparaó, da relação humana-natureza, tentando desconstruir nomenclaturas e trazer um entendimento de vida. Kaluanã é um nome tupi-guarani que significa “o grande guerreiro”. Na música, trago ainda a referência a Oswald de Andrade e seu manifesto antropofágico: “Tupi or not tupi? That’s the question”. Era uma busca pela própria identidade brasileira, que até então só imitava a europeia. Nessa música faço essas conexões para dizer que na vida, nessa observação da natureza, precisamos buscar nossa essência, nossa própria identidade como seres da natureza, como brasileiros.
A partir daí já dá pra perceber que meu processo criativo é lindamente caótico. Não costumo escrever diariamente nem à mão. Estou sempre anotando no celular, gravando áudios e guardando tudo num banco enorme. Quando sinto que é momento de compor, acesso essas ideias. Componho pensando em álbuns, para que as músicas já se conectem num recorte específico da vida.”